2h30
- O concerto dos
Ornatos Violeta
chega ao fim, com banda e público em êxtase. O espetáculo da banda do
Porto, que tinha fechado a "loja" há coisa de dez anos, era o mais
aguardado da noite e, possivelmente, de todo o festival. Se o
alinhamento não seria, à partida, passível de causar grande surpresa -
esperava-se que respeitasse a ordem das canções de
O Monstro Precisa de Amigos
, o que, com uma ou outra intromissão bem-vinda, foi acontecendo -
muitos outros fatores suscitavam expectativa no público, a perder de
vista, que enchia o anfiteatro de Paredes de Coura. Nunca em Portugal,
que nos lembremos, uma banda rock de sucesso moderado/de culto no seu
tempo de vida regressou à atividade dez anos depois, com uma base de fãs
dilatada e sôfrega. Durante muitos anos, os músicos que haviam
integrado o grupo negaram a possibilidade de se virem a reunir, o que
agora deixava nos mais inquietos, também, a dúvida: como encarariam
Manel Cruz (voz), Peixe (guitarra), Elísio Donas (teclados), Nuno Prata
(baixo) e Kinörm (bateria) a multidão que os aguardava? Afinal, ainda
recentemente o guitarrista - que hoje tocou, também, com os Dead Combo e
apareceu em palco com uma t-shirt daquela dupla - admitia que,
tecnicamente, a missão estava "controlada", e que o problema poderia ser
a questão emocional.
A resposta a quase todas estas inquietações não podia ser mais positiva:
à medida que se aproximava a concretização daquele que foi, ao longo
dos anos, um sonho impossível para tantos, a ansiedade era palpável e
bonita de se sentir. Quando, ao fim de algumas ameaças, o quinteto do
Porto entrou em palco, de sorriso estampado no rosto e braços erguidos,
triunfais, o arrepio coletivo deve ter-se sentido no Norte de Espanha.
"Tanque", uma das canções mais monolíticas de
Monstro
e aquela que abre o disco, provou ser verdade aquilo que Manel Cruz
dissera à BLITZ: que embora a banda já não tenha a "energia adolescente"
de outros tempos, encontra agora na contenção (vocal, mas não só) um
novo trunfo. A expressividade do cantor, todavia, mantém-se inalterável,
sobretudo nos temas em que se vê livre da guitarra.
Seguiram-se "Chaga" e "Dia Mau", duas das canções mais fortes do disco e
que, por culpa de alguns "espectadores" e não da banda, deixaram um
travo amargo em muitos dos fãs que se encontravam nas primeiras filas: a
BLITZ teve a triste ideia de assistir ao concerto perto do palco e,
além de perder um sapato (nada de grave), viu muita gente a ter de ser
retirada por seguranças e fotógrafos, esmagada e com falta de ar -
admiradores da banda que perderam a oportunidade de usufruir
convenientemente de um grande concerto, graças àqueles para quem o mosh é
tão natural, e tão falho de regras, em concertos como Ornatos Violeta
ou Kasabian (!).
De volta à música: outra das grandes curiosidades que sentíamos
prendia-se com a "volta" que os Ornatos iriam dar a "Deixa Morrer" e
"Fim da Canção", duas das melhores canções de
Monstro
, geralmente proscritas da digressão desse álbum. Graciosas, ambas foram
dos melhores momentos deste espetáculo onde também "Ouvi Dizer", que
sofreu do efeito contrário - sobre-exposição e alguma saturação por
parte de Manel Cruz - ganhou uma vida nova. A parte final, em disco
declamada por Vítor Espadinha, surgiu num tom mais coloquial, exigindo,
possivelmente, uma emoção diferente por parte do cantor: e o público
acompanhou, emocionado, gritando para um dos dois microfones que Manel
Cruz usou nessa música.
"Como se diz na minha terra: foda-se!", desabafou então o "Bandido",
gerando um coro espontâneo desse mesmo vocábulo. Logo a seguir, "Capitão
Romance", outro dos pontas-de-lança do segundo e último disco de
Ornatos, mostrou ter nascido para ser cantada em Paredes de Coura: toque
mediterrânico, canção para marinheiros bêbedos, uma melancolia sem fim,
doçura para entoar, sem atenção ao desafino, até perder a voz. No mesmo
campeonato do algodão doce com travo agridoce, "Coisas" (pequena
catedral, percebemos hoje - e como gostámos de ouvir Nuno Prata a
cantar) e "Notícias do Fundo" (de uma beleza quase litúrgica, respeitada
pelo público - mas também já estávamos longe do buraco negro onde
perdemos o sapato) mostraram como os Ornatos se empenharam na preparação
deste concerto. O novo final de "O.M.E.M." (com os Faith no More de
"Gentle Art of Making Enemies" a transformarem-se nos Mr Bungle) ou o
brilhantismo de "Nuvem" deixaram o público de Paredes de Coura como deve
estar o público de um festival, na hora do cabeça de cartaz: tudo a
olhar para o mesmo lado, o palco.
Para o encore, como haviam dito os Ornatos em entrevista à BLITZ, podiam
estar reservadas as surpresas, ou seja, as faixas que não entraram em
Monstro
: e foi assim que "Devagar" e "Como Afundar" (uma das melhores letras de
Manel Cruz) chegaram a palco, em modo semi-acústico e sentido, e os
espantosos épicos "Há-de Encarnar" e "Tempo de Nascer" (a canção com que
nos apaixonámos pela banda, incluída na compilação
Tejo Beat
) voltaram a levar o eco dos cinco da Invicta a toda a região do
Minho-Galiza. Por esta altura já não sobravam quaisquer dúvidas sobre a
paixão com que os Ornatos Violeta encetaram esta sua nova vida (em
Outubro há mais quatro coliseus) - os sorrisos dos músicos foram mesmo
algo de comovente e recompensador para qualquer fã ver - nem do valor de
Monstro
, que em 2012 não só não soa datado como é perfeitamente capaz de perfazer um concerto de altíssima qualidade.
Guardado estava ainda um encore com oferendas que ninguém podia
antecipar: um tema de 1993, "A Metros de Si", espelho das influências
cabaré dos primeiros anos dos Ornatos, "Pára-me Agora", um dos inéditos
da caixa lançada no ano passado - e convite para a trupe da banda
invadir, aos saltos, o palco numa celebração castiça - e, nem sequer
contemplado no alinhamento, "Dias de Fé", uma rajada de ruído nunca
gravada e que nos lembramos de ter encerrado o concerto na Aula Magna,
em promoção de
O Monstro Precisa de Amigos
, em 2000. Foi o espetáculo em que mais gente vimos para ver os Ornatos:
e, dessa vez, a Aula Magna nem sequer encheu. Esta noite, Paredes de
Coura rebentou pelas costuras para fazer uma vénia à banda que não
esqueceu na última década. Numa e outra ocasião de triunfo, "Dias de Fé"
fechou. A fé compensa - confirmá-lo foi um prazer.
Texto de Lia Pereira
Fotos de Rita Carmo/Espanta Espíritos